Eu acredito nos encontros!

terça-feira, 17 de dezembro de 2013






“Na cama em que os sonhos se fazem, o teu corpo misturado com o meu. Assim se ergue a vida, por detrás do cheiro do sexo molhado, por sobre a verdade dos lábios esfaimados. Agarrar-te na carne e sentir-me de alma, o por dentro de estar vivo a cada segundo de suor. Dou-te com a força de um animal, louco e insaciável animal - com o «toma", o "gostas?", o "pede". E ainda assim te dou com a ternura incomparável de um cúmplice - com o "preciso-te sem igual", o "gosto-te até aos ossos", o "amo-te sem amanhã". Na cama em que os sonhos se fazem, nem os corpos sabem a quem pertencem. Somos dois, com o prazer de todos os mundos. Somos um. E um é tudo."

by Pedro Chagas Freitas

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Aceno


Vintage

Aceno

Longe, 
Seu coração bate por mim; 
E a sua mão desenha aquele afago 
Que me sossega inteiro... 

Longe, 
A verdade serena do seu rosto 
É que faz este dia verdadeiro... 

Miguel Torga, in 'Diário (1939)'
by Safwan Dahoul




Cada dia tem sua beleza única.
Cada momento faz-se necessário contemplar da melhor maneira.
Para que você possa guardar na alma,o que de belo toca o teu coração.

by Rosicler Ceschin

by Mladen Parvanov



Aquele que amo
Disse-me
Que precisa de mim.

Por isso
Cuido de mim
E receio ser morta
Por uma só gota de chuva.

BRECHT, Bertolt. Poemas 1913 -1956. Seleção e tradução de Paulo César de Souza. Editora 34. São Paulo, 2000. 
p.135
by Igor Kosti 



"Enquanto eu te beijo, o seu rumor
nos dá a árvore, que se agita ao sol de ouro
que o sol lhe dá ao fugir, fugaz tesouro
da árvore que é a árvore de meu amor.

Não é fulgor, não é ardor, não é primor
o que me dá de ti o que te adoro,
com a luz que se afasta; é o ouro, o ouro,
é o ouro feito sombra: a tua cor.

A cor de tua alma; pois teus olhos
vão-se tornando nela, e à medida
que o sol troca por seus rubros seus ouros,
e tu te fazes pálida e fundida,
sai o ouro feito tu de teus dois olhos
que me são paz, fé, sol: a minha vida!"

by Juan Ramón Jiménez, in "Ríos que se Van»

Prezado colecionador:




Jean-Philippe Charbonnier, 1950


O sexo perde todo o seu poder, toda a sua magia, quando se torna explícito, abusivo, quando se torna mecanicamente obcecante. Passa a ser enfadonho.

Nunca conheci pessoa que melhor provasse o erro que é não se lhe juntar a emoção, a fome, o desejo, a luxúria, os caprichos, as manias, os laços pessoais, relações mais profundas, que lhe mudam a cor, o perfume, os ritmos, a intensidade.

Nem o senhor sabe o quanto perde com esse seu exame microscópico da atividade sexual e a exclusão dos outros aspectos, que são o combustível que a faz atear. Intelectual, imaginativo, romântico, emocional. Eis o que dá ao sexo as suas surpreendentes texturas, as mudanças subtis, os elementos afrodisíacos. O senhor restringe o seu mundo de sensações. Disseca-o, definha-o, tira-lhe o sangue.
Se o senhor alimentasse a sua vida sexual com todas as aventuras e excitações que o amor instila a sensualidade, seria o homem mais poderoso do mundo. A fonte da potência sexual é a curiosidade, é a paixão. O que o senhor vê é sua débil chama a morrer de asfixia. O sexo não pode medrar na monotonia. Sem invenções, humores, sentimentos, não há surpresa na cama. O sexo deve ter à mistura lágrimas, riso, palavras, promessas, cenas, ciúme, todos os condimentos do medo, viagens ao estrangeiro, novas caras, romances, historias, sonhos, fantasias, musica, dança, ópio, vinho. O que o senhor perde com esse periscópio na ponta do sexo, quando podia gozar de um harém de maravilhas várias e jamais repetidas! Não há dois cabelos iguais; mas o senhor não quer que desperdicemos palavras a descrever uns cabelos. Não há dois cheiros iguais; porém, se nós nos detemos com isso, o senhor exclama: "Suprimam a poesia." Não há duas peles de igual textura; nunca é a mesma luz, a mesma temperatura, as mesmas sombras, nunca são os mesmos gestos; porque um amante, quando animado do verdadeiro amor, é capaz de vencer séculos e séculos de ciência amorosa. Quantas mudanças de tempo, quantas variações de maturidade e de inocência, de arte e de perversidade...

Discutimos até à exaustão para saber como seria o senhor. Se fechou os sentidos à seda, à luz, à cor, ao cheiro, ao caráter, ao temperamento, deve estar nesta altura totalmente empedernido. Há tantos sentidos menores que se lançam como afluentes no rio do sexo!

Só o bater em uníssono do sexo e do coração pode provocar o êxtase.

Anaïs Nin, 1941


Stanko Abadžic - Rose


A verdadeira afeição na longa ausência se prova." (Camões)

Mensageira






vem
quebra o silêncio do espaço
que me envolve em ondas de tédio
onde meus sonhos rasgados se contorcem

vem
habitada flor perfumada
cor seiva pétala fruto
pousar suavemente
neste espaço desnudado

vem
fonte de amor
dar riso ao sol
criar rios de luar
onde me aqueço e banho
vem assim simples
sem véus de cristal
regar meu corpo vagabundo»


by António Sem

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

LIBERDADE...

Safwan Dahoul



E tuas asas,
Para onde te levam?
Tuas asas te levam
Para longe daqui.
Olho em teus olhos e não te encontro...
Como encontrar um sonho
Que é sonhado
Tão longe de mim?...

E teus sonhos,
O que te trazem?
Que delírios ou encantos
Eles conseguem te dar?
Olho em teus olhos
E procuro respostas para perguntas
Que nem mesmo consigo formular.

E tuas asas,
Para onde te levam?
Para que terra de magia
E de sonhos sem fim...?
Tudo bem, eu te liberto...
Vá e viva teus sonhos;
Mas eu te espero...
Vê se volta logo;
Volta logo para mim!

by wanderley j. rodrigues

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013




Existe um "estrangeiro" numa "terra de ninguém" que em mim transita livremente quando amo. 
É constante fluir do que desconheço, do que não sei; uma resistência sem armas à contemporaneidade.
Quando amo não busco no "outro" o que em mim falta. Tento descobrir e partilhar o "outro" que em mim mora desde sempre. 
Esse “desconhecido é o que me direciona à imprevisibilidade, essencial alimento do amor.

by Maria Regina Alves


Tem nome veemente. O Nunca Mais tem fome.
De formosura, desgosto, ri
E chora. Um tigre passeia o Nunca Mais
Sobre as paredes do gozo. Um tigre te persegue.
E perseguido és novo, devastado e outro.
Pensas comicidade no que é breve: paixão?
Há de se diluir. Molhaduras, lençóis
E de fartar-se,
O nojo. Mas não. Atado à tua própria envoltura
Manchado de quimeras, passeias teu costado.
O Nunca Mais é a fera.

by Hilda Hilst



"Tão pouco do que pode acontecer acontece..." 

  by Salvador Dalí


Não há guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa
como uma flor mesmo num canteiro...

by João Cabral de Melo Neto dedicado a Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 26 de novembro de 2012




Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dois mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.

Farei que amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente.

Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a menor parte.

Porém, pera cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa
Aqui falta saber, engenho e arte.

Luís de Camões










De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Vinicius de Moraes



Eu sinto que nasci para o pecado,
se é pecado, na Terra, amar o Amor;
anseios me atravessam, lado a lado,
numa ternura que não posso expor.

Filha de um louco amor desventurado,
trago nas veias lírico fervor,
e, se meus dias a abstinência hei dado,
amei como ninguém pode supor.

Fiz do silêncio meu constante brado,
e ao que quero costumo sempre opor
o que devo, no rumo que hei traçado.

Será maior meu gozo ou minha dor,
ante a alegria de não ter pecado
e a mágoa da renúncia deste amor?!...

by Gilka Machado



A recordação é o perfume da alma. É a parte mais delicada e mais suave do coração, 
que se desprende para abraçar outro coração e segui-lo por toda a parte.

George Sand

PRESENÇA



É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.

by Mario Quintana



De amor nada mais me resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto;
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem. 

by Natália Correia.

in, «Poesia Completa»,
D. Quixote, Lisboa, 1999